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Despertar em vida

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“E se para você a poesia ‘é tornar possível o impossível’, daqui a pouco você será acordado. Vem cantar com a gente.” E assim começava Cantata para um Bastidor de Utopias, encenado pela Cia do Tijolo em São Paulo. Apresentando a peça Mariana Pineda, escrita pelo espanhol Federico García Lorca, o grupo ultrapassa sem demora ou constrangimento a quarta parede e nos encontra para tornar possível não apenas o encantamento, mas principalmente a reflexão política.

A peça escrita por Lorca e encenada pela primeira vez em 1927 em Barcelona é baseada na história real de Mariana de Pineda Muñoz, ocorrida quase 100 anos antes do poeta teatralizá-la. Em Granada, Andaluzia, a viúva Mariana borda uma bandeira para os revolucionários republicanos hastearem após sua vitória contra o rei Fernando VII. Presa, enquanto seus aliados e seu amor fugiam, Mariana se nega a entregar o nome de seus companheiros e acaba sendo guilhotinada.

A história real de Mariana se mistura com a de García Lorca e com as de outra dezena de personagens reais representados na peça. O poeta, socialista e homossexual assumido, foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola e considerado como “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver” foi executado com um tiro pelas costas. Seu corpo nunca foi encontrado.

Lorca, revivido nos primeiros momentos da peça, nos conduz através de sua obra dividida em quatro atos. A encenação brinca com o formato de cantata ao trazer os atores cantando com acompanhamento musical. Diferente de um musical formal suas canções não descrevem um acontecimento e sim estados psicológicos de forma lírica. O músico Jonathan Silva assina todas as composições da produção, cantadas impecavelmente por todo o elenco. O trabalho minucioso com cenários, figurinos e iluminação durante toda a peça ainda que extremamente competente, não é o que realmente torna Cantata uma experiência singular.

A derrubada da quarta parede, referida no parágrafo de abertura, faz alusão à teoria do teatro épico do alemão Bertolt Brecht e com certeza sua utilização é o que torna a encenação admirável. Os entreatos – são três – falam sobre amor, sobre solidão, sobre esperança, sobre medo, sobre causas e, principalmente, sobre ideais. A proximidade dos atores com o público, não tem em momento algum a intenção de buscar a identificação do mesmo com o drama apresentado, muito pelo contrário. A cia empenha-se, desde a abertura até o encerramento do espetáculo, a evitar a empatia da plateia se não fazer com que acorde para seu próprio lugar no mundo e sua própria realidade. Mais que sorrisos de encantamento, o que se espera são reflexões profundas, reverberantes e internas.

A ideia de Brecht da catarse consciente é levada a fundo pela cia, que no terceiro entreato coloca todo o público sentado ao redor de uma grande mesa para partilhar mais do que o delicioso pão e vinho distribuído, de histórias reais de quem viveu a ditadura militar no país. De uma maneira bem pensada, bem amarrada e intensa, o público é levado de Granada para o Brasil para que compreenda a universalidade do tema e notar que ele é mais atual do que nunca.

Afinal, o que Mariana, Lorca e os presos da ditadura tem em comum? O fato de todos eles terem morrido por causas legítimas e terem caído no completo esquecimento ou anonimato. Durante os entreatos, nomes de diversos presos políticos são relembrados e suas histórias são revividas. Os mortos voltam à vida em Cantata, para simbolicamente serem enterrados como devem. E símbolos é o que não falta durante a peça. Para onde quer que se olhe há alguma referência, algo para se refletir, seja em uma tesoura, seja em um olhar, seja em um toque. Quanto mais se compreende que Mariana Pineda somos todos nós, mais nítida – e emocionante – a peça se torna.

Apaixonante, Cantata nos envolve em um despertar para dentro e nos lembra de sentimentos e emoções que jamais deveriam ser esquecidos. E se ao final o público enterra com dignidade todos esses mortos, fica claro que por dentro eles estão mais vivos do que nunca. E por consequência, nós também.

 Cantata para um Bastidor de Utopias

Direção: Rogério Tarifa e Rodrigo Mercadante
Elenco: Rodrigo Mercadante, Dinho Lima Flor, Fabiana Vasconcelos Barbosa, Lilian de Lima, Karen Menatti, Thais Pimpão, Maurício Damasceno, Aloísio de Oliveira, Jonathan Silva, Thiago França e Rogério Tarifa
Dramaturgia: Cia do Tijolo
Cenário: Rogério Tarifa
Figurino: Silvana Mareondes

P.S.: Essa resenha crítica foi produzida para uma das aulas do meu curso de especialização em jornalismo cultural, ministrada pela professora Elen Doppenschmitt.

Não consegui encontrar o crédito do fotógrafo, se alguém souber, me avisa.

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regabofe do adeus

Ah 2011…

Adeus 2011? Metade cá, metade lá, de inteiro só a vibe e a música que não parava nunca. O silêncio entorpece e silencia a entorpecência. Algumas horas, algumas cervejas, muitos amigos, muitos segundos, um bohemian rhapsody berrado em plenos pulmões, um milhão de sorrisos, certas lágrimas, fotos tensas e intensas (parafraseando a amiga) analógicas e digitais e de repente não é mais você, 2011, não pode ser. Você nunca teve momentos tão bons assim.

Adeus 2011! Estamos todos fartos de você.  Foi exorcizado, terminado, finalizado, um grande chega! Até o fim de fato fico em modo repouso na vida, esperando. Mas não me submeto mais aos seus mandos e desmandos, você já não pode me subjugar. Pro inferno reclamar do azar, do mau-olhado, da inveja e da traíragem, serviu para alimentar meu dark place que vai vomitar honestidades em forma de poesia.

Adeus 2011. Você não foi tão bom quanto poderia ser, nem ao menos se esforçou para tal, apenas foi. Que miserabilidade nos fez viver. Mas adeus, obrigada pelos trancos e barrancos e puxadas de tapete mais que hollywoodianas – clichês – que nos deu. Vai embora a mágoa, fica o olhar. Vai embora o passado e o futuro ao mesmo tempo e fica o presente. Você ainda existe, eu sei e te ignorar não vai mudar esse fato. Mas falta tão pouco para a sua importância ser menor que posso viver a alegria ilusória de te finalizar no hoje.

Adeus 2011 e seja bem-vindo você.

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